Notas da Superfície, e do desprezo por ela

22 11 2009

por Cesar Santos

Durante o velório de um velho amigo, um homem de meia-idade revê a própria vida que leva: sem qualquer contato mais profundo com nenhum aspecto de sua existência, tal qual sua família, profissão ou visão política. Um homem que se descobre angustiado por sua insignificância, por sempre estar em cima do muro. Este é Oscar e sua jornada interior retratados em “Notas da Superfície”, espetáculo em cartaz no Teatro Popular do SESI, na região central de São Paulo.

A peça começa no velório de Vidal (interpretado por André Grecco), que levanta de seu descanso para conversar com o amigo que não vê há muitos anos. Desse diálogo inicial – que conta também com a presença do zelador do cemitério (Bia Borin) – Oscar passa a refletir sobre o seu relacionamento com a ex-mulher Alice (Rita Batata) e a filha Ana (Fabiana Scaglioni), os dias em que frequenta o bar de Mazé (de Apoena Gurggel) e sobre as causas que deixou de apoiar quando se tornou servidor público. Com o apelo de personagens mitológicos – tal qual o Corifeu, de Marcelo Selingardi -, Oscar embarcará num caminho entre a vida e a morte, entre os dois lados de um mesmo muro.

O grupo de jovens atores do Núcleo Experimental de Artes Cênicas do SESI – SP traz dinamismo e agilidade em cena, além de boas interpretações à montagem. Especialmente em relação aos atores André Grecco e Apoena Gurggel, ambos responsáveis por momentos cômicos de humor negro e de tiradas inteligentes, cujas atuações já valeriam o ingresso. O cenário muda conforme a disposição e composição dos ambientes da estória, mas todos se utilizam de um único muro, ao fundo. Som e luz estão em níveis satisfatórios e permitem uma boa adequação do público assim que este adentra ao Mezanino do prédio.

Mas – se no que diz respeito à trama e elenco – não restam colocações, sobram-se queixas à infra-estrutura disponibilizada pelo SESI à montagem do autor Felipe de Moraes e da diretora Marcia Abujamra. Para começar, a escolha do Mezanino como espaço físico cedido não parece ter sido uma ideia das mais felizes. É apertado para a distribuição de palco, platéia e mesa de som, tornando-se mais semelhante à um corredor estreito. Além disso, para a já diminuta distribuição de cadeiras – são 50 lugares – elas são enfileiradas em nível plano, igual à estrutura do palco e a de todo o Mezanino, ocasionando o fato de que pessoas de estatura baixa ou que estejam em fileiras mais afastadas sequer vejam o andamento do espetáculo.

Devido às falhas supracitadas, grande parte do público que esteve presente à sessão vista optou por sair ainda nos primeiros minutos de exibição. Ademais, o surgimento de uma barata entre as cadeiras também fez com que outras pessoas da platéia se retirassem, causando um pequeno desvio de atenção. Por tudo isso, a vida de Oscar não é só insignificante para o próprio e para quem assistir ao drama, como também se tornou digna de desprezo logo na visão da Instituição que nos apresenta à ela, ironicamente. É o descaso por estar tão na superfície.

“Notas da Superfície”

No Centro Cultural Fiesp – Ruth Cardoso – Mezanino

Av. Paulista, 1313 – metrô Trianon-Masp

De 5 de Novembro até 20 de Dezembro

Quartas a Sábado, às 20h30m; Domingos às 19h30

50 lugares. Entrada Franca. 12 anos.

* * *

OBS.1: Felipe de Moraes, responsável pela peça, é um dos novos autores destacados pelo Núcleo de Dramaturgia SESI – British Council, que existe desde Outubro de 2007. Quer ser um novo autor teatral? Saiba mais sobre o processo seletivo e participe!

 

OBS.2: Quer conferir outra peça bacana ou se inteirar sobre qualquer programinha cultural que valha a pena? Se liga no twitter do Centro Cultural da FIESP!





Noite em cena

14 11 2009

por Carmen Carolina Souza

noite em cena fotoooHá cinco semanas, São Paulo ganhou uma nova casa cultural. Noite em cena, com idealização de Leonardo Stefanini, chega para integrar arte ao espírito noturno. Em um ambiente aconchegante, os espectadores contemplam uma peça no palco do teatro e depois se direcionam para o lounge, onde podem assistir a um show ao vivo de jazz. No final da noite, a pista de dança é aberta para os que querem curtir a noite ainda mais. Por ser um espaço pequeno, com ocupação de no máximo 350 pessoas, os espectadores recebem um atendimento quase personalizado. A fidelização dos clientes é uma das prioridades da casa. O local, juntamente com o cenário próprio, é a atração principal. Para as próximas semanas, já está confirmada a peça “Noivas de Nelson”, uma adaptação do texto de Nelson Rodrigues. O espaço promete agitar as quintas feiras da capital paulista e torná-las bem mais cultural.

***

 

Obs.1: A peça “noivas de Nelson” é bastante famosa no cenário teatral. Leia uma resenha crítica sobre ela.

Obs.2: Já existem em São Paulo alguns lugares que integram arte à noite. O bar “fim do mundo” é um deles. Conheça!





Grand Moscow Classical Ballet

2 11 2009

Por Sally Borges

Ballet
Depois de 29 anos sem apresentações no Brasil, o Grand Moscow Classical Ballet estão de volta para uma grande turnê pelo país. Através do Time For Fun, serão quinze apresentações em sete estados. A companhia russa traz dois de seus melhores espetáculos, A Bela Adormecida de Pyotr Ilyich e Dom Quixote de Lean Minkus.

Sob a direção artística de Natalia Kasatkina e Vladimir Vasilyov, a Companhia reflete a constante busca por novas propostas e linguagens para a dança, num estilo próprio que une as tradições clássicas a elementos modernos. Com coreografias inovadoras e performances altamente técnicas aliadas a produções originais e um elenco de solistas premiados internacionalmente, esta turnê marca os 43 anos de história do Grand Moscow Classical que incluirá também apresentações na Romênia, Hungria, Espanha, Portugal, Estados Unidos e Canadá.

Fundado em 1966, por um dos mais importantes coreógrafos do século XX, Igor Moiseyev, o grupo foi originalmente concebido como “Balé Jovem” da Companhia Estatal de Dança da União Soviética. Em 1968 realizou sua primeira performance. A partir de 1977, transformou-se em uma companhia de balé clássico com repertório próprio. Formados pela Escola Bolshoi de Coreografia e dois dos principais solistas do Ballet Bolshoi entre as décadas de 1950 e 1970, Kasaktina e Vasilyov atuaram de forma decisiva para consolidar o Grand Moscow Classical Ballet no cenário internacional, tornando-se nomes referenciais da cultura russa. Em seu currículo constam mais de 20 produções, incluindo também coreografias para balés como Bolshoi e Kirov – e mais de 55 performances encenadas pelo mundo a partir de seus libretos.

Ballet1 Hoje, o Grand Moscow Classical Ballet acumula apresentações em mais de 30 países da Europa, América e Ásia, além de 200 cidades em seu país de origem. Seus bailarinos já foram premiados com mais de 15 medalhas de ouro em competições internacionais e por três vezes na Academia de Dança de Paris. Recentemente, também foi agraciada com o título de “Companhia Acadêmica” pelo governo russo, uma menção honrosa concedida a poucas companhias de balé russas. Durante nove anos excursionou ininterruptamente com “O Quebra-Nozes”.

A Companhia começa sua turnê em Porto Alegre, passa por Juiz de Fora, Belo Horizonte, Salvador, Curitiba, Rio de Janeiro, Brasilia e por fim, São Paulo, nos dias 20, 21 e 22 de novembro no Teatro Abril. Vale a pena conferir!

* * *

OBS.1: São Paulo é a ultima cidade que o espetáculo passará, mas os ingressos já estão a venda no site do Teatro Abril. Melhor já garantir antes!

OBS.2: O Ballet Moscow arrasta multidões pelos países que se apresentam! No Brasil, os fãs criaram até um twitter para mais informações sobre a Companhia e sua passagem pelo país. Vale entrar e saber um pouco mais!

 





Simplesmente Clarice

23 10 2009

por Amanda Pirozzelli

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Um dos maiores nomes da literatura brasileira, finalmente foi reconhecido com uma peça em sua homenagem. Clarice Lispector (1920-1977), autora de livros como “A Hora da Estrela”, “Laços de Família”, “Água Viva”, entre outros; foi homenageada com o monólogo “Simplesmente Eu. Clarice Lispector”, encenado, adaptado e dirigido pela atriz Beth Goulart.

Ao longo de dois anos, Beth pesquisou a fundo a vida e obra da autora, a fim de compor a personagem de Clarice e também de quatro de suas personagens, que segundo a atriz, acabam incorporando algumas características da escritora em seus perfis. Alegando que essas quatro mulheres se parecem com Lispector, a história alterna momentos de sua vida, com as histórias por ela narradas. O conteúdo do espetáculo, consiste em depoimentos, correspondências, entrevistas e trechos dos livros “Perto do Coração Selvagem”, “Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres”, além dos contos “Amor” e “Perdoando Deus”.

O monólogo traz temas como, reflexões sobre a criação, Deus, vida e morte, solidão, amor, loucura, cotidiano, palavra, silêncio, solidão, arte, aceitação, inspiração e entendimento.

peçaAlém da extrema semelhança física entre a atriz e Clarice, para dar vida à escritora, Beth fez dois workshops com Daisy Justus, psicanalista especializada na autora, que analisa sua obra sob a ótica da psicanálise. Além disso, contou também com seis meses de preparação vocal e corporal. Encarnou perfeitamente Lispector, tanto na fala, misturando a língua presa e o sotaque pernambucano, como também no jeito de olhar e manias ao fumar um cigarro.

A peça atualmente em cartaz no Rio de janeiro e bastante elogiada pela crítica, está prevista para chegar a São Paulo no início de 2010. Vale ressaltar que este é o primeiro de uma série de projetos de direção e dramaturgia de Beth Goulart sobre figuras femininas brasileiras.

* * *

OBS.1: Última entrevista da escritora, concedida à TV Cultura. Foi parte do material utilizado por Goulart para compor a personagem. Vale ressaltar que a entrevista possui 5 partes, sendo esta a primeira.
OBS.2: Site que reúne obras e informações sobre a escritora Clarice Lispector.
OBS.3: Um pouco mais sobre a carreira da atriz Beth Goulart





“Hamelin” : o peso de uma palavra no drama teatral

10 10 2009

por Cesar Santos

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No último dia 02 – sexta-feira – estreou a peça “Hamelin”, no teatro do Centro Cultural Banco do Brasil, em plena região central de São Paulo. O texto é de autoria do espanhol Juan Mayorga, que ganhou o prêmio Max de Melhor Autor Teatral devido à ele. Na peça, o ator global Vladimir Brictha lidera um grupo composto por mais cinco atores em cena, que revezam papéis entre si numa trama sobre um caso de rede de pedofilia. Brichta interpreta Monteiro, um jovem juiz que sente extrema necessidade em resolver um possível caso de pedofilia tendo apenas como prova o relato de um garoto chamado Zé Maria.

Ao longo do drama, o juiz entra em contato com o menino e o pai dele, Chico – ambos vividos por Oscar Saraiva -; além de outros membros da família da vítima como o irmão Gonçalo (Alexandre Dantas), a mãe Fernanda (Cláudia Ventura) e uma irmã cuja identidade é tratada apenas por Moça (Patrícia Simões). Além de Oscar, outros atores também encaram papéis duplos. Alexandre Dantas ainda encarna Jaime – o filho do juiz – enquanto as atrizes Cláudia e Patrícia fazem as personagens da sua esposa Júlia e da psicopedagoga Raquel, respectivamente. O ator Alexandre Mello interpreta somente ao acusado pelos crimes de abuso infantil, Rivas. Com a única exceção de Britchta, todos os demais atores agem igualmente como comentadores e responsáveis pela introdução de cada cena.hamelin00

A montagem é realizada de acordo com um princípio de simplicidade em todos os seus aspectos, dos estéticos e visuais até mesmo ao da linguagem trabalhada. O cenário é constituído de duas mesas retangulares – sendo que a principal é posta no centro do palco e a secundária fica no canto esquerdo com jarras de água e copos -, oito cadeiras e oito luminárias estrategicamente posicionadas e uma parede preta ao fundo – onde serão coladas páginas sulfites – para garantir a a ambientalização da trama. Não há um figurino típico para os atores e todas os diálogos seguem um estilo dinâmico e vivo, conforme baseado no gênero policial.

Apesar de contar sua estória por meio de um tema polêmico como a pedofilia, o espetáculo com pouco mais de uma hora e meia de duração possui agilidade e cortes eficientes durante sua encenação. Seu desenvolvimento não parte muito além do famigerado conto sobre “O Flautista Hamelin” – que, para se vingar de uma certa cidade, decide raptar as crianças de lá se utilizando dos sons de sua flauta -, sua inspiração em texto e título. Não importa o quanto esta busca pela verdade desencadeie um ciclo vicioso, o dilema de Monteiro se aprofunda: enquanto os problemas para a solução do crime vão se tornando maiores, as respostas de Zé Maria tornam-se cada vez mais pequenas. Pode ser impossível ou não achar a verdade absoluta.

* * *

OBS.1: O blog Brasil Contra a Pedofilia já indicou a peça de André Paes Leme como um evento bacana sobre o assunto. Dê uma olhada por lá e se engaje nessa causa!

OBS.2: Juan Mayorga escreveu “A Tartaruga de Darwin” que, por sinal, também está em cartaz com montagem brasileira, no Rio de Janeiro. Veja no site do Guia da Semana mais informações a respeito e confira este espetáculo!





O amor que faz rir e chorar, pela Fraternal Cia de Arte e Malas-Artes

27 09 2009

por Cesar Santos

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Na abertura da peça “A História de Muitos Amores”, em cartaz no Teatro Popular do SESI, uma voz grave e masculina faz a leitura de um singelo poema a respeito da grande palavra-chave dessa noite: o amor. Se trata da voz de ninguém menos que Domingos Oliveira, o criador da estória. Ele nos indica que, nos próximos 100 minutos de duração, o mais nobre dos sentimentos humanos ganhará formas diversas e surpreendentes. As tais formas aparecem, ganham o foco e nos fazem beirar entre o riso e o choro. Exatamente as duas faces do genêro em questão – a tragicomédia -, não poderiam ser mais específicas pra representar as tradicionais máscaras que identificam o teatro.

A escolha do próprio cenário deixa claro a que veio. O circo, com sua tenda exuberante e painéis chamativos, reforça os aspectos coloridos e bonitos da situação. Há luzes devidamente adornadas na borda do palco e até mesmo um trapézio para que tudo soe real. Uma típica e antiga marchinha brasileira começa a tocar ao fundo, quando entram em cena os dois principais personagens: o anfitrião Portobello e o palhaço Pimpão (levados à vida pelos atores Aiman Hammoud e Fernando Paz, respectivamente) do Circo Portobello, que se divertem diante um “respeitável público”. Não podem esperar pelo o que irão ver – e que determinará todo o curso da trama -, mas a figura de uma mulher frágil aparecerá no pequeno picadeiro e trará compaixão, desejo, angústia não somente à eles como para toda a trupe. Esta mulher tão logo se revelará ser Ângela, uma moça que nunca trabalhou em um circo mas que acaba entrando para a equipe de Portobello. muitos_amores_009

Neste conjunto circense estão presentes ainda a dançarina Ana – interpretada por Luciana Viacava -, filha de Pimpão, e Pablo, o trapezista galanteador do ator Edgar Campos. Eles formam um casal enamorado mas que se defrontam com um cíumes intenso de ambas as partes. Além destes, dois personagens de caráter duvidoso se apresentam para a platéia como a dupla de negociadores, Lindolfo (Marcio Castro) e Dra. Gavião (Isadora Petrin), arrancando risadas de todos – sobretudo do público infanto-juvenil que também assiste ao espetáculo.

No entanto, é mesmo no que se refere ao gênero da peça onde ela ganha maior notoriedade. Cada ator tem com seu personagem um momento de alegria e prazer diante o amor, mas tão logo chegue a próxima cena e poderemos vê-lo sentindo tristeza, rejeição e profunda infelicidade. Dissabores que, se não atuados na vida cotidiana de cada um, na dos artistas sensíveis e falidos da Companhia Portobello, ele tende a se agravar significativamente. O final retrata esse ponto de esgotamento e torpor, sem cair em armadilhas fáceis, e nos fazendo pensar como concluíram de maneira tão única. Uma maneira em que a dúvida permaneça, porque por mais que o amor seja uma questão subjetiva, também é verdadeiramente humana e, portanto, complexa. A vida, a poesia e o circo terminam por se igualar à este sentimento: nos traz choro e risos intensamente.

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OBS.1:Agora, em Outubro, começam as apresentações do Festival de Circo do Brasil 2009. Quem se interessar pode assistir aos show que serão realizados em homenagem ao ano da França no Brasil, confira a programação especial.

OBS.2:Para ajudar a equipe técnica e todo o elenco na construção do universo circense visto em cena, foi contratado um profissional da arte. Chang é trapezista renomado, membro do Circo Espacial. Saiba mais sobre o Mago do Equilíbrio que ajudou na peça.





Música, sarcasmo e Broadway: a vida adulta segue pela Avenida Q

20 09 2009

Por Cesar Santos

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Faltam adjetivos para descrever, com fidelidade, o quão Avenida Q é um espetáculo grandioso. Em cartaz desde a segunda quinzena de Agosto, no Teatro Procópio Ferreira, em plena região central de São Paulo, a peça vem se mostrando uma ótima pedida para o público paulistano. A montagem empreitada pela dupla Claudio Botelho e Charles Moeller – responsável pela vinda de outros clássicos tais quais My Fair Lady e A Noviça Rebelde – têm uma produção esmerada e orçada em mais de R$ 3 milhões. O musical retrata a trajetória do recém-formado Princeton (interpretado por André Dias), que não sabe o que fazer da vida e procura um rumo ao alugar um apartamento na suburbana avenida. Ele se depara com a dura realidade do local por meio de situações com dois imigrantes – sendo um judeu e uma japonesa-, uma jovem professora, um intelectual enrustido, um garotão descolado e um ex-ator mirim negro, sem falar que ainda tem de ouvir conselhos de dois “Ursinhos do Mal”. Sempre com o melhor do humor politicamente incorreto.

Caracterizando a imponência da peça não estão apenas os cifrões investidos, mas absolutacenario-avenidaqmente tudo o que o espectador vê em mais de duas horas e vinte minutos de duração. Luz, trilha sonora e figurinos são impecáveis. O cenário é rico em detalhes e possui, inclusive, uma camiseta da seleção brasileira estendida no parapeito de uma janela, a fim de ambientalizar o enredo. Dezesseis bonecos se revezam nas mãos de cinco atores excelentes e que sincronizam com perfeição as dores e sabores de cada personagem. Os destaques vão para a afinidade entre Renata Ricci e Fred Silveira, na coordenação de movimentos – e pela entrega à atuação, sendo que Renata chega a chorar verdadeiramente durante uma cena -, e para a atriz Sabrina Korgut, que maneja simultaneamente a doce Kate Monstra e a fogosa Lucy de Vassa.

O espetáculo tem piadas bem atuais em seu repertório cômico, além de muitas referências ao mundo pop, desde a comparação entre o personagem Gary Coleman com o famigerado garoto-propaganda de cigarros feitos de chocolate por uma marca brasileira, até ao recente caso da cantora Vanuza, que errou a letra do hino nacional em uma cerimônia. Para os fãs do desenho japônes Dragon Ball, há uma pequena homenagem feita por Japaneuza – levada à vida pela estonteante Claúdia Netto – com seu grito “Kame Hame Ha”. Se todo o conjunto de quem e do quê está à frente do palco já não fosse bom o bastante, o que está por detrás dele garante momentos ainda mais notáveis. Há uma direção dinâmica que guia o show e, para torná-lo digno desse título, uma orquestra ao vivo – formada por seis músicos e situada atrás do cenário – embala os números musicais como Merda, Se você fosse Gay, Todo mundo é meio racista e outros tantos.

cena-avenidaqEnfim, gerando múltiplas reações, das lágrimas ao incontrolável deslumbramento, o musical serve como uma grande lição de vida transmitida desta vez aos mais crescidos, por bonecos menos respeitosos do que seus colegas, advindos dos The Muppets e do pioneiro Vila Sésamo. O ensinamento sobre o dia-a-dia moderno que espera cada um, com seus problemas e ironias, que pode ser visto agora pelos adolescentes que buscam um caminho, ou simplesmente para os adultos que querem rever os passos que levam à ele. Vale a pena conhecer esse rumo. Siga direto até a Avenida Q. 

* * *

OBS.1: Muitas pessoas que assistem à montagem brasileira, principalmente os mais jovens, acabam não sabendo, mas há mais graça do que parece no personagem Gary Coleman. Isso porque ele é baseado em um ator da vida real, que fez muito sucesso nos anos 80.

OBS.2: As redes sociais estão causando uma evolução peculiar no rumo dos grandes musicais da Broadway. Next to Normal é o primeiro a ter performances realizadas via Twitter.

OBS.3: Descobriu que seu dom é mesmo cantar, dançar e atuar? Está disposto à encenar peças musicais? Então, você pode tentar a sorte e fazer parte do curso Making Musicals ,com aulas direcionadas e palestras de gente que entende do assunto – como o supracitado Claudio Botelho.








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