Por Paulo Lima

No universo feminino, a marca Chanel se consolidou como incontestável sinônimo de elegância e de classe. Pouco se sabe, no entanto, que, muito antes de atingir este patamar, a icônica estilista Gabrielle “Coco” Chanel teve de enfrentar o mau olhado, o deboche e a inflexível tradição da sociedade do início do século XX. Com suas ideias visionárias, promoveu uma revolução no conceito de roupa feminina e introduziu no mundo da moda a mistura entre o preto e o branco, as bijouterias, os tailleurs e as roupas de jersey.
Em “Coco Antes de Chanel”, Audrey Tautou, de “Amelie Poulain”, encarna a temperamental Gabrielle Chanel. Sua infância se resumiu a passar os domingos à espera de seu pai, em vão, num orfanato localizado no coração da França. No ápice de seus 20 anos, ganhou a vida como artista de cabaré, onde animava e ao mesmo tempo detestava uma platéia de prostitutas e soldados bêbados. Como o dinheiro era escasso, também consertava bainhas nos fundos de uma alfataria de cidade pequena. Solitária e desamparada, foi se refugiar no casarão de Etienne Balsan, que logo após descobriria ser uma extensão da vida decadente de Paris. Não quis se casar com Boy Capel, o único homem a retribuir o seu amor e aceitar os seus inusuais trajes.
O filme da diretora Anne Fontaine, além de passar pelas variadas fases de Coco, de uma órfã a uma lendária estilista, transcende o rótulo de biografia quando oferece uma perspectiva acerca do que influenciava a moda e inspirava a mulher na época. Um dos maiores interesses de Coco desde cedo, demonstrado na cena em que fica estática em meio a uma multidão em polvorosa só para observar as tendências e encontrar possíveis adaptações para a moda feminina. Acompanhamos o seu olhar sagaz, com câmeras em zoom que focalizam os brincos, os pesados vestidos e os chapéus emperiquitados. Sem contar as instâncias em que rasga a camisa de seu amante e a costura em seu vestido, quando descarta o espartilho para dançar melhor ou, por fim, utiliza roupa masculina para andar a cavalo.

A graça do filme está em acompanhar Chanel na sua tentativa de remar contra a maré numa sociedade caracterizada pelos excessos na hora de se vestir, mostrando que a simplicidade consegue chamar mais a atenção do que plumas, adornos, jóias e cintas. Em ver os seus olhos brilharem pela beleza prosaica dos sweaters listrados dos pescadores em Deauville ou constatar a sua euforia quando descobre que o preto e o branco das roupas das freiras de seu orfanato pode culminar em uma mistura revolucionária. Mais ainda, em rever a famosa cena na qual a estilista, sentada na escada coberta de espelhos de seu ateliê parisiense, é aplaudida de pé.
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OBS.1: As criações-conceito de Chanel jamais seaem da moda.
OBS.2: A estilista, que também desafiou a tradição encurtando os seus longos cabelos, inspirou o popular corte Chanel, que volta com força em Paris.
OBS.3: Para os que ainda não sabem, o poster brasileiro de “Coco Antes de Chanel” sofreu uma “adaptação”. Identifique o motivo.





