por Cesar Santos

Durante o velório de um velho amigo, um homem de meia-idade revê a própria vida que leva: sem qualquer contato mais profundo com nenhum aspecto de sua existência, tal qual sua família, profissão ou visão política. Um homem que se descobre angustiado por sua insignificância, por sempre estar em cima do muro. Este é Oscar e sua jornada interior retratados em “Notas da Superfície”, espetáculo em cartaz no Teatro Popular do SESI, na região central de São Paulo.
A peça começa no velório de Vidal (interpretado por André Grecco), que levanta de seu descanso para conversar com o amigo que não vê há muitos anos. Desse diálogo inicial – que conta também com a presença do zelador do cemitério (Bia Borin) – Oscar passa a refletir sobre o seu relacionamento com a ex-mulher Alice (Rita Batata) e a filha Ana (Fabiana Scaglioni), os dias em que frequenta o bar de Mazé (de Apoena Gurggel) e sobre as causas que deixou de apoiar quando se tornou servidor público. Com o apelo de personagens mitológicos – tal qual o Corifeu, de Marcelo Selingardi -, Oscar embarcará num caminho entre a vida e a morte, entre os dois lados de um mesmo muro.
O grupo de jovens atores do Núcleo Experimental de Artes Cênicas do SESI – SP traz dinamismo e agilidade em cena, além de boas interpretações à montagem. Especialmente em relação aos atores André Grecco e Apoena Gurggel, ambos responsáveis por momentos cômicos de humor negro e de tiradas inteligentes, cujas atuações já valeriam o ingresso. O cenário muda conforme a disposição e composição dos ambientes da estória, mas todos se utilizam de um único muro, ao fundo. Som e luz estão em níveis satisfatórios e permitem uma boa adequação do público assim que este adentra ao Mezanino do prédio.
Mas – se no que diz respeito à trama e elenco – não restam colocações, sobram-se queixas à infra-estrutura disponibilizada pelo SESI à montagem do autor Felipe de Moraes e da diretora Marcia Abujamra. Para começar, a escolha do Mezanino como espaço físico cedido não parece ter sido uma ideia das mais felizes. É apertado para a distribuição de palco, platéia e mesa de som, tornando-se mais semelhante à um corredor estreito. Além disso, para a já diminuta distribuição de cadeiras – são 50 lugares – elas são enfileiradas em nível plano, igual à estrutura do palco e a de todo o Mezanino, ocasionando o fato de que pessoas de estatura baixa ou que estejam em fileiras mais afastadas sequer vejam o andamento do espetáculo.

Devido às falhas supracitadas, grande parte do público que esteve presente à sessão vista optou por sair ainda nos primeiros minutos de exibição. Ademais, o surgimento de uma barata entre as cadeiras também fez com que outras pessoas da platéia se retirassem, causando um pequeno desvio de atenção. Por tudo isso, a vida de Oscar não é só insignificante para o próprio e para quem assistir ao drama, como também se tornou digna de desprezo logo na visão da Instituição que nos apresenta à ela, ironicamente. É o descaso por estar tão na superfície.
“Notas da Superfície”
No Centro Cultural Fiesp – Ruth Cardoso – Mezanino
Av. Paulista, 1313 – metrô Trianon-Masp
De 5 de Novembro até 20 de Dezembro
Quartas a Sábado, às 20h30m; Domingos às 19h30
50 lugares. Entrada Franca. 12 anos.
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OBS.1: Felipe de Moraes, responsável pela peça, é um dos novos autores destacados pelo Núcleo de Dramaturgia SESI – British Council, que existe desde Outubro de 2007. Quer ser um novo autor teatral? Saiba mais sobre o processo seletivo e participe!
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